quarta-feira, 4 de novembro de 2026


                                                                     

PROPOSTA DE REGULAMENTAÇÃO DO USO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NO SISTEMA DE JUSTIÇA BRASILEIRO: REVISÃO HUMANA, RASTREABILIDADE DOS PROMPTS E GARANTIAS PROCESSUAIS

 

Por Érico Olivieri

Advogado especialista em teoria e prática processual

 

RESUMO

A incorporação da inteligência artificial generativa à atividade jurídica exige mecanismos de controle, transparência e responsabilização. Embora ofereça possibilidades de eficiência, seu uso pode introduzir erros de fato, referências jurídicas inexistentes e riscos ao sigilo e à proteção de dados. Este artigo examina a viabilidade de regulamentação específica para o sistema de Justiça brasileiro. Mediante pesquisa jurídico-normativa, análise documental e exame de proporcionalidade, propõe três mecanismos: declaração de revisão humana, registro dos comandos relevantes e apresentação de prompts em anexo às peças expressamente definidas em lei. Distingue-se a declaração de uso da tecnologia daquela que atesta a revisão do conteúdo. A proposta também contempla a contestabilidade da influência algorítmica e a proteção de informações confidenciais. Sustenta-se que a rastreabilidade deve constituir obrigação informacional proporcional, cuja ausência seja passível de regularização, sem indeferimento ou sanção automáticos por esse único fundamento. Conclui-se que sua implementação requer lei federal para delimitar o alcance da obrigação e regulamentação complementar para os procedimentos técnicos, preservadas as competências institucionais e as garantias processuais.

Palavras-chave: Inteligência artificial; processo civil; sistema de Justiça; revisão humana; rastreabilidade; prompts; contestabilidade algorítmica.

 

1. INTRODUÇÃO

 

Ferramentas de inteligência artificial generativa capazes de elaborar textos, resumir documentos, identificar padrões, organizar informações, sugerir fundamentos jurídicos e produzir minutas passaram a ser utilizadas na advocacia, no Ministério Público, na Defensoria Pública e no próprio Poder Judiciário.

Essa transformação oferece oportunidades relevantes de eficiência, mas também introduz riscos que não podem ser ignorados. Sistemas de inteligência artificial podem produzir informações falsas com aparência de confiabilidade, atribuir fundamentos inexistentes a decisões judiciais, interpretar incorretamente documentos, reproduzir vieses e incorporar informações sem correspondência com os elementos efetivamente constantes dos autos.

O problema adquire especial gravidade quando o resultado produzido ou influenciado pela tecnologia é incorporado a uma petição, manifestação processual, parecer ou decisão judicial sem verificação humana adequada.

A responsabilidade pelo ato jurídico não pode ser transferida à ferramenta tecnológica. Entretanto, a simples afirmação de que um ser humano permanece responsável não é suficiente se inexistirem mecanismos capazes de demonstrar que houve efetiva supervisão, identificar a origem do conteúdo e permitir a apuração de falhas relevantes.

É nesse cenário que se apresenta a proposta de regulamentação desenvolvida neste artigo.

Defende-se a instituição de três mecanismos centrais: (i) a declaração de revisão humana efetiva; (ii) a manutenção de registros dos comandos relevantes utilizados na interação com sistemas de inteligência artificial; e (iii) a apresentação dos prompts, incluindo os comandos complementares materialmente relevantes, em anexo próprio às peças processuais expressamente abrangidas pela legislação. A declaração de revisão humana deve ser distinguida da declaração sobre a utilização material de inteligência artificial prevista na minuta: uma atesta a validação do conteúdo; a outra informa o emprego da tecnologia.

A proposta também contempla a possibilidade de contestação da influência algorítmica quando a utilização da tecnologia puder ter contribuído materialmente para um ato capaz de afetar direitos.

Não se pretende restringir a utilização da inteligência artificial, tampouco exigir a exposição indiscriminada de todas as interações tecnológicas.

O objetivo é estabelecer um modelo de responsabilidade, transparência e rastreabilidade compatível com as garantias constitucionais e com a realidade do processo eletrônico.

A relevância do problema é ilustrada por comunicação institucional do Superior Tribunal de Justiça, publicada em 3 de novembro de 2026, que registra a identificação de petições com precedentes inexistentes e recomenda a conferência nas bases oficiais.

Esse registro e outros divulgados pelo próprio Poder Judiciário, sustenta a necessidade de maior controle no uso da IA generativa no meio jurídico.

 

2. METODOLOGIA E DELIMITAÇÃO

 

O estudo adota metodologia jurídico-normativa, mediante análise da Constituição Federal, do Código de Processo Civil, da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, das normas de governança do Conselho Nacional de Justiça e das diretrizes profissionais aplicáveis à advocacia.

Complementa-se a análise com pesquisa documental em relatório do CNJ e comunicação institucional do STJ. O recorte de atualização das fontes é 4 de novembro de 2026; os documentos institucionais são utilizados como apoio contextual.

A investigação também compreende análise crítica da competência legislativa e administrativa das instituições envolvidas, bem como exame de proporcionalidade das medidas propostas.

O objeto está delimitado à utilização de inteligência artificial generativa na elaboração, transformação ou revisão substancial de conteúdos destinados a integrar atos jurídicos e procedimentos do sistema de Justiça.

Não se pretende disciplinar todo e qualquer uso de tecnologia, mas estabelecer controles específicos para situações em que a ferramenta tenha influência material na formação do conteúdo jurídico-processual.

 

3. FUNDAMENTOS CONSTITUCIONAIS E LEGAIS

 

A regulamentação proposta encontra fundamento em garantias constitucionais que não podem ser afastadas pela incorporação de novas tecnologias e controles legais.

O devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa, previstos no art. 5º, incisos LIV[1] e LV[2], da Constituição Federal, exigem que os atos capazes de afetar direitos possam ser submetidos a controle jurídico adequado.

A proteção da intimidade e dos dados pessoais, prevista no art. 5º, incisos X[3] e LXXIX[4], da carta magna, impõe limites à coleta, conservação e divulgação de informações utilizadas em sistemas de inteligência artificial.

O art. 37, caput[5], da Constituição Federal, estabelece os princípios que orientam a Administração Pública, enquanto o art. 93, IX[6], exige fundamentação das decisões judiciais. A utilização de sistemas automatizados não afasta a necessidade de motivação juridicamente adequada nem autoriza a transferência da função jurisdicional à tecnologia.

No plano processual, o Código de Processo Civil estabelece deveres de boa-fé, lealdade e veracidade, especialmente em seu art. 77. O art. 489, § 1º, por sua vez, disciplina os elementos necessários à fundamentação das decisões judiciais.

Essas disposições demonstram que a utilização de inteligência artificial já se encontra submetida a deveres jurídicos preexistentes. A proposta, portanto, não parte da ausência de responsabilidade, mas da necessidade de aperfeiçoar os instrumentos que permitem verificar seu cumprimento.

A Lei nº 13.709/2018 (LGPD) também assume papel central, especialmente quanto aos princípios da finalidade, adequação, necessidade, segurança e prevenção. A criação de registros de prompts deverá observar tais parâmetros, evitando conservação excessiva e exposição indevida de informações.

 

4. O MARCO REGULATÓRIO ATUAL E SUAS POSSÍVEIS LACUNAS

 

No âmbito do Poder Judiciário, a Resolução CNJ nº 615/2025 estabelece diretrizes para o desenvolvimento, a utilização e a governança de soluções de inteligência artificial. Sua versão compilada incorpora a alteração realizada pela Resolução nº 674/2026 (Conselho Nacional de Justiça, 2025, 2026).

A norma contempla princípios de transparência, segurança, supervisão humana, avaliação de riscos e responsabilização. Também prevê restrições a determinados usos incompatíveis com as garantias fundamentais e estabelece mecanismos de governança institucional.

A Resolução CNJ nº 674/2026 alterou o art. 15 da Resolução nº 615/2025, relativo à composição do Comitê Nacional de Inteligência Artificial do Judiciário. A alteração não instituiu, por si só, a obrigação geral de anexar prompts às petições ou de apresentar declaração individual de revisão humana em toda manifestação processual.

A regulamentação do CNJ constitui avanço relevante, mas sua incidência está delimitada ao âmbito do Poder Judiciário e às competências constitucionais e administrativas do Conselho. Não substitui a necessidade de disciplina legislativa quando se pretende criar requisitos processuais gerais aplicáveis aos sujeitos do processo.

Na advocacia, a Recomendação nº 001/2024 do Conselho Federal da OAB estabelece diretrizes para a utilização ética da inteligência artificial generativa, destacando a supervisão humana, a confidencialidade, a privacidade e a necessidade de verificação dos conteúdos produzidos. Seu caráter orientador não se confunde com a criação de requisito processual por lei (Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, 2024).

No plano legislativo, o PL nº 2.338/2023 integra o debate sobre a governança da inteligência artificial. Conforme a ficha de tramitação consultada em 4 de novembro de 2026, a proposição aguardava parecer na comissão especial da Câmara dos Deputados. Trata-se, portanto, de referência ao debate legislativo, e não de fundamento legal vigente para exigir anexos processuais. A proposta deste artigo concentra-se na disciplina específica de rastreabilidade no processo civil (Câmara dos Deputados, 2023).

O quadro normativo demonstra que já existe preocupação institucional com o uso responsável da tecnologia. A contribuição desta proposta está em avançar da orientação geral, para mecanismos processuais concretos de identificação, documentação e controle da utilização material da inteligência artificial.

 

5. A DECLARAÇÃO OBRIGATÓRIA DE REVISÃO HUMANA

 

A primeira medida ora proposta consiste na instituição de declaração expressa de revisão humana. Essa declaração deverá atestar que o conteúdo juridicamente relevante produzido ou substancialmente alterado por inteligência artificial foi efetivamente revisado por pessoa responsável pelo ato.

A revisão deverá ser compatível com a natureza do documento e compreender, quando pertinente, a verificação dos fatos, fundamentos jurídicos, citações normativas, precedentes, documentos, cálculos e conclusões produzidas ou sugeridas pela ferramenta.

Não se pretende transformar a declaração em formalidade vazia. Seu propósito é individualizar a responsabilidade e tornar verificável a existência de controle humano.

A declaração também não poderá funcionar como excludente de responsabilidade. A assinatura do responsável não elimina os deveres profissionais, processuais ou funcionais aplicáveis.

A obrigatoriedade deverá ser proporcional à relevância da utilização. O emprego de IA exclusivamente para correção ortográfica, formatação ou organização visual, sem influência material na argumentação, poderá ser dispensado da formalidade.

No âmbito judicial, a disciplina deverá respeitar a independência funcional do magistrado e não poderá substituir o dever constitucional de fundamentação.

 

6. REGISTRO DOS PROMPTS E RASTREABILIDADE

 

A segunda medida consiste na manutenção de registros das interações relevantes com sistemas de inteligência artificial.

O registro deverá permitir identificar, na medida tecnicamente disponível, a ferramenta utilizada, sua versão ou modelo, a data da interação, o comando inicial, os comandos complementares materialmente relevantes e os resultados efetivamente aproveitados na elaboração do conteúdo jurídico.

A proposta não exige a conservação indiscriminada de todas as interações realizadas pelo usuário. O registro deve concentrar-se nas etapas que tenham contribuído materialmente para o conteúdo apresentado ou utilizado no procedimento.

A rastreabilidade permite identificar a origem de erros, reconstruir a sequência de elaboração e verificar se a revisão humana foi efetiva.

A declaração de revisão humana e o registro dos prompts possuem funções distintas. A primeira individualiza a responsabilidade pela validação; o segundo fornece elementos para reconstruir a utilização da ferramenta.

A manutenção dos registros deverá observar prazos de conservação, controle de acesso, segurança da informação, minimização de dados e proteção do sigilo profissional.

A eventual apresentação desses registros nos autos não poderá ser automática e indiscriminada. O acesso deverá observar a pertinência, a necessidade e a existência de fundamento jurídico, admitindo-se versões expurgadas, extratos ou acesso restrito quando necessário à proteção de informações confidenciais.

 

7. A APRESENTAÇÃO DO PROMPT COMO ANEXO ÀS PEÇAS PROCESSUAIS: PROPOSTA DE ALTERAÇÃO DO CPC

 

A terceira medida representa um desenvolvimento específico da proposta original e merece tratamento legislativo próprio.

Defende-se a inclusão, no Código de Processo Civil, de obrigação de apresentação dos prompts utilizados na elaboração de determinadas peças processuais. Essa apresentação deve abranger os comandos complementares que tenham influenciado substancialmente o conteúdo jurídico apresentado.

A medida busca conferir rastreabilidade externa à utilização da inteligência artificial, permitindo que o processo contenha informação documentada sobre a origem tecnológica de conteúdos relevantes.

O art. 319 do CPC estabelece os requisitos da petição inicial, enquanto o art. 320 disciplina sua instrução documental. O art. 321 prevê oportunidade para correção de defeitos ou irregularidades.

A estrutura desses dispositivos permite conceber a apresentação dos prompts como requisito informacional sujeito a regularização, e não como condição autônoma para o exercício do direito de ação. Essa delimitação concilia o dever de rastreabilidade com a preservação do acesso à justiça.

A ausência da declaração ou do anexo, quando exigíveis, deverá ser tratada como irregularidade sanável. A proposta prevê oportunidade de complementação e afasta o indeferimento da petição ou a imposição automática de sanção por esse único fundamento. Eventual responsabilização por conduta distinta, como falsidade ou má-fé, permanece sujeita aos requisitos e às garantias da legislação aplicável.

A alteração legislativa poderia alcançar, além da petição inicial, as manifestações processuais expressamente indicadas, como contestação, reconvenção, recursos, sentenças, acórdãos e outras peças de conteúdo substancial, quando a inteligência artificial tiver influenciado materialmente sua elaboração.

Não se recomenda utilizar a expressão genérica "manifestações mais importantes", pois sua indeterminação pode gerar insegurança jurídica. À lei cabe definir as peças e os sujeitos abrangidos; à regulamentação complementar, disciplinar os procedimentos técnicos de cumprimento da obrigação, sem ampliar seu alcance.

O documento poderá ser denominado Anexo de Rastreabilidade de Inteligência Artificial, contendo:

 

a) identificação do sistema utilizado e, quando disponível, sua versão ou modelo;

b) data aproximada da utilização;

c) texto dos prompts materialmente relevantes;

d) comandos complementares que tenham alterado substancialmente a orientação ou o conteúdo;

e) indicação sucinta das partes do documento elaboradas ou materialmente modificadas com auxílio da ferramenta;

f) declaração de que o conteúdo foi submetido à revisão humana.

 

A exigência não seria necessária em usos meramente acessórios, como correção ortográfica, formatação do texto ou ajustes gramaticais sem influência material no raciocínio jurídico.

Também deverá ser assegurado tratamento reservado às informações protegidas por sigilo profissional, segredo de justiça ou proteção de dados pessoais. A apresentação poderá ocorrer em anexo de acesso restrito, versão expurgada ou extrato técnico, conforme a necessidade do caso e a decisão judicial fundamentada.

A ausência do anexo, quando exigível, deverá constituir irregularidade sanável, com oportunidade de complementação, vedado o indeferimento automático da petição ou a imposição imediata de sanção.

A alteração do CPC é juridicamente possível, pois compete privativamente à União legislar sobre direito processual, conforme o art. 22, I, da Constituição Federal.

Sua pertinência decorre da possibilidade de transformar a rastreabilidade em elemento verificável no próprio processo, superando a limitação de mecanismos exclusivamente internos de governança tecnológica.

 

8. CONTESTABILIDADE DA INFLUÊNCIA ALGORÍTMICA

 

A rastreabilidade somente alcançará sua finalidade plena se houver possibilidade de questionamento da influência da tecnologia nos atos capazes de afetar direitos.

Propõe-se, por isso, o reconhecimento de um mecanismo de contestabilidade da influência algorítmica, que teria lugar quando a parte que apresentasse fundamento concreto para questionar a utilização material de inteligência artificial poderá requerer esclarecimentos sobre a finalidade do uso, sua contribuição para o conteúdo do ato e as medidas de supervisão humana adotadas.

Como exemplo hipotético, suponha-se que, em uma ação de cobrança, uma petição elaborada com auxílio de inteligência artificial atribua a um documento dos autos uma declaração que ele não contém.

Ao apontar a divergência entre a afirmação e o documento, a parte contrária apresentaria fundamento concreto para solicitar, no modelo proposto neste artigo, esclarecimentos sobre a contribuição da ferramenta e a revisão humana realizada.

A análise poderia ser limitada aos prompts e resultados relacionados ao trecho questionado, com proteção das informações confidenciais e sem exposição integral da estratégia processual.

Confirmado o erro, caberia avaliar sua correção e eventual consequência processual segundo a legislação aplicável, sem presumir nulidade ou má-fé pelo simples emprego da tecnologia.

Não se trata de assegurar acesso irrestrito a todos os prompts, códigos-fonte ou modelos computacionais, tampouco de criar novo recurso processual, mas de permitir que a parte obtenha informações suficientes para verificar se houve falha relevante, omissão de dados, distorção de elementos probatórios ou influência tecnológica incompatível com as garantias processuais.

A contestação deverá ser submetida a critérios de pertinência e proporcionalidade. A autoridade competente poderá determinar a apresentação de registros específicos, a realização de revisão humana independente ou a adoção de providências corretivas, conforme o caso.

A mera utilização da tecnologia não gera nulidade. Eventual consequência processual dependerá da natureza do vício, de sua relevância, do prejuízo e dos requisitos previstos na legislação aplicável.

 

9. COMPETÊNCIAS INSTITUCIONAIS

 

A implementação da proposta exige respeito à distribuição constitucional de competências.

Congresso Nacional: compete à União legislar sobre direito processual, nos termos do art. 22, I, da Constituição Federal. A criação de requisitos gerais para petições e manifestações processuais, inclusive a apresentação de anexo de rastreabilidade, deve ser realizada por lei federal.

Conselho Nacional de Justiça: pode disciplinar a governança e a utilização de inteligência artificial no âmbito do Poder Judiciário, observadas suas atribuições constitucionais, especialmente as previstas no art. 103-B da Constituição Federal. Pode estabelecer procedimentos administrativos, auditorias, padrões técnicos e mecanismos de transparência para os órgãos judiciais, sem substituir a legislação processual.

Conselho Nacional do Ministério Público: poderá disciplinar aspectos de governança e utilização institucional da inteligência artificial no âmbito do Ministério Público, respeitadas suas atribuições constitucionais.

Conselho Federal da OAB: poderá orientar e disciplinar aspectos éticos e profissionais da utilização da inteligência artificial na advocacia, nos limites da Lei nº 8.906/1994, sem instituir, por ato próprio, requisito processual geral de admissibilidade das petições.

Defensoria Pública e demais instituições: deverão estabelecer políticas internas compatíveis com suas atribuições, respeitando as garantias dos assistidos, a proteção de dados e a legislação aplicável.

A solução mais adequada é a conjugação de lei federal, regulamentação administrativa e diretrizes profissionais, evitando que uma única instituição extrapole sua competência.

 

10. PROPOSTA NORMATIVA

 

Considerando a necessidade de preservar a concisão e a aplicabilidade, propõe-se a seguinte minuta preliminar:

 

10.1. Alteração do Código de Processo Civil

 

Art. 319. A petição inicial indicará:

(...)

VIII – declaração sobre a utilização material de sistemas de inteligência artificial generativa em sua elaboração, revisão ou transformação substancial, quando exigível na forma da lei.

§ 4º. Nas hipóteses previstas em lei, a utilização de inteligência artificial generativa deverá ser acompanhada de declaração de revisão humana efetiva e de Anexo de Rastreabilidade de Inteligência Artificial, contendo os prompts, inclusive os comandos complementares, que tenham influenciado materialmente o conteúdo da peça.

§ 5º. O disposto no parágrafo anterior não se aplica à utilização exclusivamente acessória de ferramentas tecnológicas, sem influência material na argumentação jurídica ou no conteúdo substancial da manifestação.

§ 6º. O Anexo de Rastreabilidade deverá observar a proteção de dados pessoais, o sigilo profissional, o segredo de justiça e as demais hipóteses legais de confidencialidade, admitindo-se apresentação em documento de acesso restrito, versão expurgada ou extrato técnico, conforme regulamentação.

§ 7º. A ausência ou irregularidade do anexo, quando exigível, deverá ser objeto de oportunidade de complementação, vedado o indeferimento automático da petição por esse único fundamento.

Art. 319-A. O disposto no inciso VIII e nos §§ 4º a 7º do art. 319 aplica-se às demais peças processuais expressamente definidas em lei, observada a delimitação legal dos sujeitos obrigados, quando a utilização de inteligência artificial tiver influência material em seu conteúdo. A regulamentação complementar disciplinará exclusivamente os procedimentos técnicos e administrativos de cumprimento dessas obrigações.

Art. 321-A. A ausência ou irregularidade da declaração ou do Anexo de Rastreabilidade de Inteligência Artificial será sanável, mediante prévia oportunidade de regularização.

Parágrafo único. A ausência ou irregularidade referida no caput não constitui, por si só, fundamento para indeferimento da petição ou imposição automática de sanção, sem prejuízo da apuração de outras condutas nos termos da legislação aplicável.

 

10.2. Diretrizes complementares de regulamentação

 

A definição legal das peças abrangidas deve ser distinguida da regulamentação dos procedimentos para cumprimento da obrigação. À lei cabe delimitar seu alcance subjetivo e objetivo; à regulamentação complementar, disciplinar os aspectos técnicos e administrativos dentro desses limites.

A regulamentação deverá estabelecer:

I – critérios objetivos para identificar a utilização material de inteligência artificial;

II – procedimentos técnicos para apresentação do anexo nas peças processuais já definidas em lei;

III – parâmetros mínimos de conservação dos registros;

IV – regras de acesso, confidencialidade e proteção de dados;

V – procedimentos de dispensa ou simplificação nas hipóteses autorizadas em lei;

VI – mecanismos de auditoria e contestabilidade;

VII – medidas de correção de falhas e responsabilização, observadas as normas legais aplicáveis.

A minuta propõe o acréscimo de dispositivos, preservando os incisos I a VII e os §§ 1º a 3º do art. 319, bem como o texto vigente do art. 321.

A criação de um art. 321-A evita substituir o parágrafo único existente do art. 321 por uma regra de finalidade distinta.

A remissão do art. 319-A limita-se ao inciso VIII e aos novos §§ 4º a 7º.

Antes da conversão em projeto de lei, deverão ser definidos expressamente os sujeitos e as peças abrangidos e conferida a compatibilidade com os requisitos próprios de cada ato processual.

 

11. VIABILIDADE, PROPORCIONALIDADE E OBJEÇÕES

 

A proposta é juridicamente viável, mas sua implementação exige amadurecimento e ponderação de interesses, observadas as objeções ora apresentadas.

A primeira objeção refere-se ao aumento da burocracia processual.

A exigência de anexos para qualquer uso de IA poderia criar obstáculos desnecessários e afetar a duração razoável do processo. A resposta está na limitação da obrigação às utilizações materialmente relevantes e às peças expressamente abrangidas.

A segunda objeção envolve o sigilo profissional e a estratégia processual. A apresentação integral dos comandos poderia revelar informações que não precisam ser compartilhadas com terceiros. A solução consiste em prever anexos de acesso restrito, versões expurgadas e acesso fundamentado.

A terceira objeção diz respeito à insuficiência técnica do prompt como instrumento de auditoria. De fato, um único comando não permite reconstruir toda a interação com um modelo generativo. Por isso, a proposta deve abranger também os comandos complementares materialmente relevantes e os registros necessários à reconstrução da utilização.

A quarta objeção relaciona-se à dificuldade de fiscalização. A imposição de obrigações sem infraestrutura técnica adequada poderia gerar declarações meramente formais. A implementação deve ser gradual, com padrões digitais simples, capacitação e avaliação periódica.

Por fim, deve-se evitar a criação de presunção de irregularidade ou má-fé pelo simples emprego de inteligência artificial.

O que se pretende controlar é a utilização irresponsável da inteligência artificial, não a inovação tecnológica.

 

12. CONCLUSÃO

 

A utilização da inteligência artificial no sistema de Justiça brasileiro exige mecanismos que permitam conciliar eficiência tecnológica, responsabilidade humana e proteção dos direitos fundamentais.

A supervisão humana, embora indispensável, não deve permanecer restrita a uma afirmação genérica de responsabilidade, sendo necessário estabelecer meios proporcionais de demonstrar sua efetividade e identificar a origem dos conteúdos produzidos com auxílio tecnológico.

A declaração de revisão humana individualiza a responsabilidade pela validação do conteúdo.

O registro dos prompts permite reconstruir as interações relevantes.

A apresentação do prompt e dos comandos complementares materialmente relevantes, em anexo próprio às peças processuais abrangidas, introduz uma dimensão externa de rastreabilidade.

A contestabilidade da influência algorítmica, por sua vez, oferece à parte um mecanismo para questionar a utilização da tecnologia quando houver fundamento concreto para tanto.

A alteração do Código de Processo Civil constitui caminho juridicamente adequado para instituir obrigações processuais gerais, desde que respeitadas as competências institucionais e as garantias de confidencialidade.

A proposta não pretende transformar o processo judicial em ambiente de exposição indiscriminada de informações tecnológicas. Pretende assegurar que a utilização de ferramentas capazes de influenciar o conteúdo de atos jurídicos seja acompanhada de responsabilidade identificável, documentação proporcional e possibilidade de controle.

Em última análise, a inteligência artificial pode auxiliar a atividade jurídica, mas não deve produzir uma zona de opacidade na qual se torne impossível identificar a origem de erros, verificar a atuação humana ou questionar influências tecnológicas relevantes.

A modernização do sistema de Justiça não exige a rejeição da inteligência artificial nem a restrição indiscriminada ao seu uso. Exige que sua utilização permaneça subordinada ao Direito, à responsabilidade humana e às garantias fundamentais do jurisdicionado.

A declaração de revisão humana, os registros e o anexo de rastreabilidade devem funcionar como controles proporcionais, com proteção da confidencialidade e oportunidade de regularização das falhas.

A conclusão é propositiva: a implementação depende de delimitação legislativa e avaliação dos custos e da efetividade dos mecanismos, aspectos que não foram mensurados neste estudo.

 

REFERÊNCIAS

 

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Brasília, DF: Presidência da República, 2015. Texto atualizado disponibilizado pela Câmara dos Deputados. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2015/lei-13105-16-marco-2015-780273-normaatualizada-pl.pdf. Acesso em: 4 nov. 2026.

BRASIL. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais.

BRASIL. Lei nº 8.906, de 4 de julho de 1994. Estatuto da Advocacia e da Ordem dos Advogados do Brasil.

CÂMARA DOS DEPUTADOS. Projeto de Lei nº 2.338/2023. Dispõe sobre o desenvolvimento, o fomento e o uso ético e responsável da inteligência artificial com base na centralidade da pessoa humana. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, 2023. Ficha de tramitação consultada em 4 nov. 2026. Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2487262. Acesso em: 4 nov. 2026.

CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. O uso da inteligência artificial generativa no Poder Judiciário brasileiro: relatório de pesquisa. Brasília, DF: CNJ, 2024. Disponível em: https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2024/09/cnj-relatorio-de-pesquisa-iag-pj.pdf. Acesso em: 4 nov. 2026.

CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Resolução nº 615, de 11 de março de 2025. Estabelece diretrizes para o desenvolvimento, utilização e governança de soluções desenvolvidas com recursos de inteligência artificial no Poder Judiciário. Brasília, DF: CNJ, 2025. Texto compilado com as alterações da Resolução nº 674/2026. Disponível em: https://atos.cnj.jus.br/files/compilado1243232026032669c529ebd7bbb.pdf. Acesso em: 4 nov. 2026.

CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Resolução nº 674, de 25 de março de 2026. Altera o art. 15 da Resolução CNJ nº 615/2025. Brasília, DF: CNJ, 2026. Disponível em: https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/6836. Acesso em: 4 nov. 2026.

CONSELHO FEDERAL DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL. Recomendação nº 001/2024. Apresenta diretrizes para orientar o uso de inteligência artificial generativa na prática jurídica. Brasília, DF: CFOAB, 2024. Diário Eletrônico da OAB, ano VI, n. 1483, 14 nov. 2024. Disponível em: https://diario.oab.org.br/pages/materia/842347. Acesso em: 4 nov. 2026.

SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. Consulta à página de jurisprudência do STJ ajuda a evitar citações falsas geradas por IA. Brasília, DF: STJ, 3 nov. 2026. Disponível em: https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Comunicacao/Noticias/2026/03112026-Consulta-a-pagina-de-jurisprudencia-do-STJ-ajuda-a-evitar-citacoes-falsas-geradas-por-IA.aspx. Acesso em: 4 nov. 2026.

 



[1] Constituição Federal. “Art. 5º. [...] LIV - ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal;”

[2] Constituição Federal. “Art. 5º. [...] LV - aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes;”

[3] Constituição Federal. “Art. 5º. [...] X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;”

[4] Constituição Federal. “Art. 5º. [...] LXXIX - é assegurado, nos termos da lei, o direito à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais.” 

[5] Constituição Federal. “Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: [...]”

[6] Constituição Federal. “Art. 93. [...] IX todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes, em casos nos quais a preservação do direito à intimidade do interessado no sigilo não prejudique o interesse público à informação;”